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3月21日 Heróis do dia-a-dia - Selecções do Reader's DigestHeróis do dia-a-dia
Um Sorriso Vale Tudo
A carreira de sucesso que abandonou deu-lhe as ferramentas para o sonho: realizar sonhos de crianças com doenças crónicas ou terminais, devolver sorrisos no meio da dor.
Sónia Morais dos Santos
Tudo começou com uma conversa com dois amigos espanhóis. Era Novembro de 2006, e Frederico Fezas Vital tinha decidido deixar-se de iniciativas próprias e projectos empreendedores. Licenciado em Direito pela Universidade Católica, exerceu durante dois anos, mas depressa compreendeu que a lentidão da justiça e a arbitrariedade de algumas decisões lhe faziam muito mais mal que bem. Depois foi trabalhar com Henrique Abecassis, e foi o responsável pela área comercial do Private Banking do BCP. Entrou em 1998 e saiu em 2002. «Sentia-me limitado e sufocado com a cadeia de decisões superiores. Sempre fui criativo e ali, apesar de ter gostado, sentia-me preso.» Então, resolveu criar, com um grupo de amigos, uma empresa de design, a Zini Design (nome criado devido ao designer Tomás, a quem os amigos chamavam Tomazini). Ao mesmo tempo, em 2002, abriu uma editora, a Letras Gordas, que lançou uma obra polémica: A Armadilha, de João Vale e Azevedo. Frederico acabou por sair dos dois projectos e dedicar-se ao ramo imobiliário. Pelo meio, fez uma pós-graduação em Marketing e uma especialização em Project Management e Leadership Management. E depois, farto então de tanta iniciativa própria, Frederico tornou-se director de Marketing do Grupo Storm. E é aqui que voltamos ao início, à conversa com os dois amigos espanhóis. «Eles estavam a contar-me que faziam voluntariado na Fundación Pequeño Deseo, uma fundação que realizava os sonhos de crianças doentes. Aquilo mexeu muito comigo. Achei uma ideia sensacional e fiquei logo com vontade de fazer uma coisa dessas em Portugal.» Desde então, Frederico nunca mais parou. «Comecei logo a fazer pesquisa de associações congéneres no resto do Mundo. Queria aprender, saber mais. Em Janeiro de 2007, deixei de ser director de Marketing da Storm e decidi fazer uma espécie de sabática para pensar melhor o projecto.» E assim foi. Depois de conhecer o trabalho de outras associações parecidas, Fezas Vital criou o seu próprio projecto de raiz: «Fui buscar elementos de várias outras organizações e fiz uma colagem e uma montagem de um conceito novo, diferente. No fundo, a ideia era basicamente a mesma: realizar sonhos de crianças com doenças crónicas e/ou terminais. Mas queríamos ir mais longe: abarcar também as famílias. E inventar actividades para lá dos sonhos dos próprios miúdos, para fazer com eles e/ou com as famílias. E dar informação ao público sobre as próprias doenças. Enfim, alargar o conceito para algo mais abrangente.» Montar a associação deu trabalho. Não era só criar o projecto, mas era preciso arranjar sócios (que têm de ser em número superior ao dos órgãos sociais). Frederico contou com o apoio de alguns amigos em quem tinha toda a confiança, mais concretamente 33 pessoas de confiança que aceitaram ser sócias. E, de repente, percebeu que era como se tivesse estado toda a vida a trabalhar para a associação. Henrique Abecassis, com quem tinha trabalhado no BCP, aceitou integrar a equipa; Tomás (o designer da Zini Design) ficou encarregado do logótipo, e vários contactos que Frederico tinha feito ao longo dos anos foram de grande utilidade na formação da instituição. «Quis ter uma base de credibilidade e consegui ter como embaixadores da associação a Drª Maria Barroso, a Drª Maria de Belém, a Drª Maria do Céu Machado e o Dr. Mário Chagas. São as caras oficiais da associação. No conselho consultivo, temos nomes de peso, nomeadamente o Dr. Gentil Martins. Era importante que as pessoas percebessem que havia nomes sérios por detrás deste projecto para que sentissem confiança no nosso trabalho.» E assim, no dia 1 de Junho de 2007, Dia Mundial da Criança, nascia a Terra dos Sonhos. Um sonho de Frederico Fezas Vital. Um sonho prestes a tornar-se realidade para muitas crianças com sofrimentos inimagináveis. «A nossa principal missão é a de retirar as crianças e as famílias do lado pesado, negativo. Queremos deslocá-las para o lado saudável da vida. Porque, nem que seja por momentos, vale muito ver uma criança ou uma família a tornar a sorrir. Vale tudo.» De resto, é esse o lema da Terra dos Sonhos: «Um Sorriso Vale Tudo.» A associação Terra dos Sonhos começou sem nenhuma estrutura executiva. Ainda assim, de Junho a Novembro de 2007, realizaram sete sonhos. «O primeiro foi um teste do Universo à nossa capacidade. O primeiro sonho era o do João Paulo, uma criança com uma doença terminal. Ele queria conhecer o Simão Sabrosa. Em dois dias, conseguimos organizar tudo. Mas na véspera à noite o pai ligou-me a dizer que ele tinha morrido. Acho mesmo que foi o Universo a testar-nos. A ver se nós ficávamos tão desmoralizados que desistíamos. Foi mau. Não posso dizer que não. Mas não íamos desistir! Havia muitos outros sonhos para concretizar.» O segundo era o de um menino que queria conhecer o Ruca. E tudo correu bem. Em Novembro de 2007, a Terra dos Sonhos contratou a primeira pessoa (todas as outras são voluntárias). Marta Ribeiro é a responsável operacional e tem feito de tudo na associação: «Organiza sonhos, trata da parte administrativa, organiza equipas de voluntários, trata dos meios... Tem sido uma peça fundamental da Terra dos Sonhos e veste muito bem esta camisola. De resto, vivemos de donativos. E tivemos sempre bastante apoio, em termos de parcerias, no que diz respeito a serviços jurídicos, serviços de comunicação, computadores... a estrutura material tem-nos sido facultada pro bono. Acho que temos tido muita sorte.» Frederico pensa melhor e corrige: «Se calhar, não tem sido sorte. As pessoas é que percebem que este projecto pode fazer muitas crianças e famílias felizes, e de facto temos notado uma grande adesão a esta causa. É muito bom ver que a Terra dos Sonhos já tem vida por si só. Criou-se uma energia muito forte e positiva à sua volta, e ela já existe, independentemente de mim.» De Junho de 2007 até hoje, a Terra dos Sonhos já realizou 28 sonhos. Frederico tenta estar presente em quase todos. «Não quero perder o contacto com a simplicidade daquilo que esteve na origem do projecto. E é fácil enredar-me na parte administrativa e de organização e perder a ligação com os sonhos das crianças. Não quero isso. Quero manter o espírito de criança e, sobretudo, ver os sorrisos de felicidade de cada vez que mais um sonho é concretizado.» Sobre os sonhos, diz que são os mais simples e os mais inesperados os que mais o comovem: «Houve uma vez um miúdo cujo maior desejo era conhecer uma fábrica de material escolar. Já viu? Já viu como pode ser fácil fazer uma criança feliz?» Claro que também há outro tipo de sonhos, mais elaborados, como ser manequim, actor, ter um quarto novo ou ir à Disneyland Paris. Mas com força de vontade (e essa Frederico tem de sobra) tudo se consegue. Em Dezembro, a Terra dos Sonhos realizou um projecto de sonho: levar 10 crianças com doenças crónicas à terra do Pai Natal, na Lapónia. Oito destas crianças foram escolhidas no Instituto Português de Oncologia (IPO), e já lutaram, ou lutam ainda, contra o cancro, e duas delas nasceram com espinha bífida, uma má formação na coluna que provoca lesões a nível do sistema nervoso central. Foram cinco dias de sorrisos e gargalhadas. As crianças escorregaram na neve, andaram em trenós puxados por renas, passearam em trenós puxados por potentes motas de neve e, claro, conheceram o Pai Natal e puderam pedir-lhe, ao vivo e a cores, os presentes desejados. A coisa mais impressionante foi quando algumas dessas crianças pediram saúde no lugar de brinquedos. «Saúde e sorrisos», pediu a Raquel, de 10 anos. Um momento muito emocionante de uma viagem que orgulha muito Frederico Fezas Vital: «Proporcionar a estas crianças uma viagem mágica no Natal foi um dos momentos altos da Terra dos Sonhos. Foi uma grande felicidade ver aqueles sorrisos.» Frederico ainda hoje pensa nas razões profundas que o levaram a envolver-se num projecto destes, largando todos os outros. «Tive um tio que esteve em minha casa um ano e meio a morrer de cancro. Lidar com a morte dele foi um processo muito duro. Ele era um grande poeta, e fui assistindo ao seu deteriorar, porque começou por perder toda a mobilidade do lado direito, que era o lado com que escrevia. E eu, que sou muito positivo, tentei sempre dar ânimo e manter o foco no lado bom para enfrentar os problemas. Não sei se vem daí esta vontade de realizar sonhos... se talvez da vontade que eu tinha de ajudar a minha avó, na fase final da vida, a concentrar-se nas coisas boas, e não nas suas limitações. Não sei. Sei que este é o projecto da minha vida e renasço sempre que realizamos mais um sonho.» Quanto ao sofrimento das crianças e à mossa que isso lhe possa provocar, diz que aprendeu a lidar com a morte e que tem sobre o sofrimento uma visão particular: «Acho que deve ter que ver com o tal lado positivo que eu tenho. Mas sinto que há, nestes processos duríssimos de doença, uma aprendizagem enorme que se retira. Tenho conhecido famílias que cresceram muito com estes processos de dor. E, além disso, para mim a morte é só um patamar, uma transição.» Frederico Fezas Vital tem 36 anos e um olhar e riso de criança. Ainda este sonho está a levantar voo e já ele sonha em alargá-lo aos idosos: «Gostava de estender o projecto aos seniores. Porque esses já viveram muito e sabem exactamente que sonho lhes falta realizar. E poder concretizar os desejos de quem já está no fim da vida é algo que eu espero mesmo poder vir a fazer na Terra dos Sonhos.»
Aqui têm um link para poderem conhecer melhor esta instituição
http://www.terradossonhos.org/docs/Projecto.pdf
Ângela (Amiga Virtual)
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